Capítulo 2

“Se o amor é a causa do nosso sofrimento e dor, ela é a causa da minha maior dor já sentida”.

Dizem que a pior dor já sentida em relação ao amor foi a de um amor não correspondido. Essa foi a maior mentira que acreditei por anos. A maior dor já sentida, é a de um amor correspondido, mas separado pelo destino.

Desliguei o telefone ainda em choque e coloquei meu casaco. Estava muito frio e o sol ameaçava aparecer no horizonte.
Liguei o carro e fui até a sua casa, ela abriu a porta apressadamente e me abraçou. Suas lágrimas logo molharam meu casaco e, naquele momento, eu soube que era mesmo verdade: sua mãe havia morrido.

 Ela não me contou de imediato o que acontecera, mas foi difícil contar em exatos e minuciosos detalhes o que aconteceu naquela madrugada fria. Em resumo, sua mãe saiu de casa desorientada como de costume, mas, dessa vez, ela estava pior e isso fez com que um breve e rápido acidente acontecesse. Ela morreu na hora.

Tentei reconfortá-la com o que pude. Entramos e então me dispus a lhe fazer uma xícara de leite bem quente com marshmallow para acalmar as coisas. Perguntei se ela tinha algum parente próximo morando na região e ela disse que teria de ir morar com os avós em um lugar muito distante.

Eles eram donos de uma rica fazenda tocada por um imenso gado e plantações de todo o tipo. O único problema era que, além de ser muito longe, era livre de qualquer tipo de comunicação com o mundo externo, ou seja, nunca mais nos falaríamos novamente.

Ela iria à sua nova casa na semana seguinte, até lá, eu ficaria com ela ajudando no que pudesse para tornar esse processo um pouco mais fácil. Foi o que aconteceu, todos os dias após a aula lhe dava uma carona até a sua casa e começávamos a encaixotar tudo, coisa por coisa, lembrança por lembrança. Cada parte da sua vida em caixas que seriam doadas ou levadas para um lugar muito distante de tudo.
A semana voou e já me via em nossa última noite juntos. Passei a fita na última caixa empilhada e sentamos no sofá. Nessa semana que ficamos juntos, um amor nasceu e cresceu entre nós. Foram os melhores dias da minha vida com ela e os dela também, ela me disse.
Falei que gostaria que ficasse, disse o quanto a amava e como desejava tê-la para sempre comigo. Ela me olhou nos olhos como quem diz apenas um adeus brevemente, perguntei se me visitaria, se a veria novamente. Ela não respondeu. Perguntei se quando ficássemos mais velhos, poderíamos ficar juntos novamente. Ela concordou.
Para sempre – ela disse.
Essas duas palavras percorreram meu caminho junto a mim, numa busca desenfreada por amor, por seu amor. Eu tinha de fazer algo a respeito, tinha de achar um meio de falar com ela nem que fosse uma vez por mês... Pensei muito. Ela estranhou, sabia no que eu estava pensando e disse que ficaria tudo bem, a distância não poderia separar o que duas almas conseguiram unir.
Disse para ficar de olhos fechados e por um breve momento coloquei a mão em meu bolso, tirando um pequeno colar. Ele era delicado em formato de meio coração com letras prateadas gravadas em relevo sempre.
Parei por um instante, apreciei cada detalhe de sua face, sua roupa, sua presença, seu cheiro... Tudo. Abri sua mão e depositei nela o colar. Por um momento ela estremeceu, surpresa abriu os olhos e, curiosa, perguntou onde estava a outra metade. Com um leve movimento, mostrei a um cordão preto com um pingente em perfeito encaixe com o dela escrito para.
Uma lágrima percorreu-lhe o rosto e eu logo a limpei, não queria que sua partida fosse motivo de tristeza. Peguei as malas, levei as para o carro e partimos para o aeroporto.
Ela disse que mandaria cartões de todos os lugares que visitasse, assim saberia por onde ela andou até chegar ao seu destino.

Sinto um peso até hoje em minha consciência, pois o tempo que perdi não lhe dizendo que a amava no primeiro dia que a vi, me fez rever a vida como algo a ser aproveitado. O tempo nunca volta.

Chegando lá, nos abraçamos por um longo tempo e então ela partiu. Só então o meu coração sentiu a saudade de verdade, aquela que não deve ser sentida.

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